Perdidos no paraíso

Longe de tudo! Só hoje me apercebi que alguém matou muitas pessoas numa discoteca. Alguém homofóbico, com a arma e a cabeça carregadas de ideias pré-concebidas.

Tenho uma história para vos contar. Uma história em dois actos. Que não se tocam, mas se completam. Não é uma história que vá mudar o mundo. Não é nada de mais. É apenas um relato. O relato de uma parte desta viagem que me fez (e está a fazer) crescer mais um pouco. E vou contá-la, sem medo do que possam pensar.

Já há muito tempo evitava ler livros com temáticas “violentas”. Não me refiro a livros de ficção e sim a relatos pessoais, a histórias reais. O motivo não variava. Afinal, não tenho assim tanto tempo livre. E o que tenho? Esse prefiro passá-lo sem pensar na quantidade de maldade que há pelo mundo fora. Assim, fui pondo de parte histórias reais, de pessoas reais, que tiveram a audácia e a coragem de contar a sua história ao mundo e que, quanto mais não seja por isso, merecem que lhes dediquemos algum do nosso tempo.

Nestas férias, ia começar a ler um livro de José Rodrigues dos Santos. Mas esqueci-me de colocar os nossos livros na mala… Quando o Martinez se lembrou que não tínhamos trazido livros, a porta de embarque já ameaçava fechar mas, apressadamente, lá fomos escolher um livro para lermos nestas férias. Andei às voltas na livraria do aeroporto, e tentei evitar, mas os meus olhos voltavam sempre a sua atenção para um livro de capa roxo e preto, com uma menina na capa. Eu sei que há coisas na vida que têm que ser. E, no que diz respeito a livros (como em tantas outras coisas), sigo a minha intuição.

Nos aeroportos, ou nas praias, entre burcas e cabelos a esvoaçar ao vento, o livro “Sobreviver a Teerão” tem-me feito viajar e reviver as memórias de Mahtob durante a sua vida, após permanecer com a sua mãe em cativeiro no Irão pelo próprio pai, bem como perceber a forma corajosa como ela encara a vida. Na verdade, a sua jornada pelo perdão ao seu pai é incrível, bem como a sua postura de que não podemos julgar o todo analisando uma parte isolada. Mesmo passando grande parte da vida amedrontada devido ao seu pai, ela defende, e acredita, que nem todos os muçulmanos são maus, só porque o pai dela fez atrocidades com ela e com a sua mãe.

O que é lindo, e nos faz pensar. E este foi o primeiro sinal, num país onde me rodeiam as burcas e olhares indiscretos. O primeiro sinal de que algo em mim estava prestes a mudar. É que é tudo um arco-íris, quando acontece longe. Nessas terras regidas por leis que não são as nossas. Depois dos atentados em França, eu fiquei sem voz. Eu. Que sempre defendi que temos que ajudar essas pessoas que fogem das guerras, refugiadas, sem voz e sem casa. Essas pessoas, que percorrem quilómetros com um oásis como destino. Um oásis que pode, muito bem, ser uma miragem. Como ajudamos Judeus na 2ª Grande Guerra, ou como gostaríamos que alguém nos ajudasse se a nossa família estivesse em risco. Sem conseguir afirmar-me contra, por sentir que não estaria certo, o meu instinto de protecção fez-me calar. É que, afinal, qualquer um pode ser um terrorista islâmico.

Em Kuala Lumpur não nos deixaram entrar, mas em Penang, fomos visitar uma mesquita. Na viagem, em cima da nossa estimada mota, eu comentei que estava um bocado nervosa e ansiosa, por não saber como seriam as reacções dos muçulmanos. A juntar à festa, estavam no Ramadão, e por isso, não fazíamos sequer ideia se nos deixariam entrar na mesquita. Chegamos pouco antes de começar a festa, e vestiram-nos logo a rigor. Uma senhora simpática foi-me encher a garrafa de água, enquanto entrávamos para visitar a mesquita. Estivemos juntos dois minutos, até nos virem dizer que as mulheres afinal tinham que estar noutra parte. E lá fui eu, observar a mesquita do lado feminino. Pouco observei, porque a mesquita era mesmo muito simples, e porque fui abordada de forma simpática pelas muçulmanas, que me quiseram por à vontade em “casa” delas, e me ofereceram comida, que guardei para partilhar mais tarde, e fora da mesquita.

Esta é a segunda parte da minha história. Ainda que as aparências possam iludir, vi pessoas alegres, mulheres curiosas e à vontade com o mundo, a viverem as suas crenças e a partilharem o melhor que têm para oferecer. E, por mais que haja maldade no mundo, certamente há pessoas boas em todos os rótulos que fazemos. Pessoas simpáticas, que nos fazem sentir em casa, a quilómetros de distância.

Não temos o direito de julgar, porque apenas Deus nos pode julgar. Independentemente do nosso credo, são os nossos actos que falam por nós. Uma multidão aponta dedos a cristãos, a muçulmanos, a homossexuais, esquecendo-se que é na diversidade que o nosso mundo ganha cor e vida! E esquecem sobretudo que, enquanto apontamos um dedo a alguém, apontamos outros quatro dedos a nós próprios. Clichés à parte: somos seres humanos, quando somos sensíveis e percebemos que vale a pena correr o risco! Arriscar a nossa “paz” ocidental, para dar a mão a pessoas como nós, que tentam chegar a um porto seguro com as suas famílias, como nós tentaríamos na sua situação.

 

 

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